Poucos jogos conseguem atravessar gerações e permanecer vivos na memória do torcedor. No caso dos cruzeirenses que acompanharam de perto a campanha do primeiro título da Copa Libertadores, em 1976, o duelo entre Cruzeiro e Internacional, em 7 de março, um domingo daquele ano, no Mineirão, é um deles.
A vitória celeste por 5 a 4, que abria a temporada do time mineiro e era válida pela fase de grupos da competição continental, não foi apenas um espetáculo de nove gols perante mais de 65 mil torcedores. Foi também um capítulo de revanche e afirmação de uma das maiores equipes da história da Raposa.
O confronto carregava uma carga emocional. Menos de quatro meses antes, o Internacional havia derrotado o Cruzeiro na final do Campeonato Brasileiro. Na época, apenas o campeão e o vice do torneio nacional garantiam vaga na Libertadores. Assim, os dois gigantes brasileiros voltaram a se encontrar logo na estreia, transformando o Gigante da Pampulha em palco de um reencontro explosivo.
Dois timaços
O contexto ajudava a explicar a expectativa. De um lado estava o Internacional dirigido por Rubens Minelli, bicampeão brasileiro, que tinha por craques como Manga, Elias Figueroa, Falcão, Valdomiro e Lula. Do outro, o Cruzeiro, comandado por Zezé Moreira, reforçado por Jairzinho e recheado de talentos como Raul, Nelinho, Palhinha, Roberto Batata e Joãozinho.
Cinquenta anos depois, o próprio Joãozinho definiria o adversário como um “timaço”, lembrando que o Colorado dominava o futebol brasileiro naquele período. Ainda assim, a equipe estrelada entrou em campo disposta a dar o troco pela derrota na decisão nacional.
1º tempo alucinante
O jogo começou em ritmo frenético. Logo aos três minutos, Palhinha abriu o placar para o Cruzeiro. Sete minutos depois, o atacante marcou novamente e ampliou para 2 a 0. O Internacional respondeu rapidamente com Lula, diminuindo aos 14 minutos.
A torcida mal tinha tempo para respirar. Joãozinho fez o terceiro gol cruzeirense aos 21 minutos, mas o Colorado voltou a encostar com Valdomiro, aos 39. O primeiro tempo terminou em 3 a 2 para os donos da casa.
2º tempo de drama, expulsão e resistência
A etapa final foi ainda mais dramática. Logo no início, um gol contra de Zé Carlos deixou tudo igual em 3 a 3. Pouco depois, o Cruzeiro sofreu um duro golpe: Palhinha foi expulso, obrigando a equipe mineira a atuar com um jogador a menos durante boa parte do segundo tempo.
Mesmo em desvantagem numérica, o Cruzeiro não se entregou. Joãozinho, em atuação memorável, recolocou a Raposa na frente ao marcar seu segundo gol na partida. O Internacional empatou novamente com Ramón, transformando o placar em 4 a 4 e aumentando a tensão nas arquibancadas.
O gol da vitória
Quando o empate parecia inevitável, surgiu o lance decisivo. Já nos minutos finais, Joãozinho invadiu a área e sofreu pênalti. A responsabilidade caiu nos pés de Nelinho, dono de uma das batidas mais fortes do futebol brasileiro.
Aos 40 minutos da etapa final, o lateral-direito cobrou com precisão e decretou o memorável triunfo celeste por 5 a 4. O nono gol da tarde/noite selou uma das partidas mais emocionantes da história da Libertadores.
Joãozinho: o herói
Com dois gols e participação direta em outros lances decisivos, o ponta esquerda Joãozinho foi apontado como o grande nome da partida. Anos depois, ele classificou o confronto como “o melhor jogo da minha vida” e lembrou que o Cruzeiro conseguiu derrotar uma potência do futebol brasileiro mesmo jogando boa parte do tempo com dez atletas.
“Falam até hoje que aquele foi o melhor jogo da história do Mineirão. Fiz dois gols, dei dois passes e ainda sofri o pênalti. Estávamos engasgados com eles, mas conseguimos ‘matar’ eles, porque depois do 5 a 4, ganhamos de 2 a 0 lá depois”, disse o ídolo celeste, hoje com 72 anos, em entrevista exclusiva a O TEMPO Sports.
Joãozinho, que ainda fez o gol do título na final, diante do River Plate, relembrou o quão difícil era aquele duelo e destacou um ponto de preocupação no início da etapa complementar. “O Inter era muito bom, e ainda jogamos com 10 homens quase todo o 2º tempo. Palhinha brigava muito com o Figueroa, o chileno, e deu uma cotovelada nele e foi expulso”, completou.
O primeiro passo rumo ao título
Mais do que uma revanche contra o rival que havia conquistado o Brasileiro de 1975, o triunfo serviu como combustível para a campanha continental. O Cruzeiro voltaria a enfrentar o Internacional no Beira-Rio, em Porto Alegre, e venceria novamente, desta vez por 2 a 0. A equipe terminaria a fase de grupos na liderança e seguiria firme até conquistar a primeira Copa Libertadores de sua história, derrotando o River Plate na final.










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